Existe uma palavra que aparece em praticamente todo relatório anual, toda apresentação para investidores e todo deck de cultura corporativa publicado nos últimos cinco anos: sustentabilidade. Ela está na missão, nos valores, nas metas ESG, nos comunicados à imprensa.
O que aparece com muito menos frequência é o que a empresa está fazendo de concreto quando o assunto chega ao programa de viagens corporativas.
E aqui está o ponto: para a maioria das organizações, as viagens corporativas não são um detalhe periférico da agenda de sustentabilidade. São um dos seus itens mais relevantes e mais ignorados ao mesmo tempo.
Os dados não deixam margem para interpretação confortável.
O tamanho real do problema
A aviação responde por aproximadamente 2,5% das emissões globais de CO₂, segundo a IATA. Mas quando se olha para dentro das empresas, o impacto das viagens corporativas é ainda mais expressivo: o programa de viagens pode representar entre 15% e 20% de toda a pegada de carbono de Escopo 3 de uma organização, de acordo com o relatório de sustentabilidade da GBTA de 2024.
E Escopo 3 é justamente o conjunto de emissões que mais cresce em relevância regulatória. A União Europeia, por meio da Diretiva de Relatório de Sustentabilidade Corporativa — a CSRD — exige que aproximadamente 50 mil empresas divulguem suas emissões de Escopo 3, incluindo viagens corporativas, sob o padrão ESRS E1. A obrigação se aplica a partir do exercício fiscal de 2024, com reporte em 2025. Nos Estados Unidos, a California SB 253 exige o mesmo para empresas com receita superior a 1 bilhão de dólares que operam no estado, com primeiros relatórios previstos para 2027.
Não se trata mais de uma questão de imagem. É uma obrigação legal em expansão acelerada.
E o dado que resume a contradição do momento vem de um levantamento da Worldmetrics: a viagem corporativa média ainda gera 400 quilogramas de CO₂ por deslocamento. Boas intenções, como observa o estudo, estão viajando muito mais rápido do que as emissões reais estão caindo.
O que as empresas líderes estão fazendo de verdade
A diferença entre empresas que têm sustentabilidade como discurso e as que têm como política real está em um elemento muito específico: rastreabilidade. As líderes medem. As demais declaram.
O primeiro movimento concreto das organizações que avançaram nessa agenda foi integrar a medição de emissões ao processo de aprovação de viagens, não ao relatório anual. Isso significa que, no momento da reserva, o viajante ou o gestor já visualiza a pegada de carbono estimada do deslocamento. A decisão acontece com informação, não depois dela.
Essa abordagem tem impacto direto no comportamento. Quando o dado está visível no ponto de compra, a escolha muda, sem necessidade de política coercitiva. É o princípio da nudge theory aplicado à gestão de viagens: tornar o comportamento sustentável o caminho de menor resistência.

O segundo movimento é a adoção de políticas de substituição modal. Voos de curta distância estão sendo substituídos por trem em rotas onde o tempo de deslocamento é comparável. Na Europa, esse movimento já tem nome — rail-first policy — e está sendo incorporado formalmente às políticas de viagem de grandes multinacionais. A lógica é simples: em trajetos de até três horas, o trem frequentemente compete em tempo porta a porta com o avião, oferece mais conforto e gera uma fração das emissões.
O terceiro movimento é a compra de certificados de Combustível de Aviação Sustentável, o SAF. Em 2026, a produção global de SAF deve atingir 2,4 milhões de toneladas, segundo a IATA, o equivalente a apenas 0,8% do consumo total de querosene de aviação. A escala ainda é pequena, mas o mercado corporativo está liderando a demanda. BCG, Netflix, Meta e mais de uma dúzia de empresas fecharam em 2024 um acordo conjunto de 200 milhões de dólares para compra de certificados SAF, segundo reportagem da Trellis. A IATA estima que o SAF pode contribuir com até 65% da redução de emissões necessária para a aviação atingir o net zero até 2050.
O quarto movimento é a exigência formal de reporte de carbono aos parceiros de gestão de viagens. Segundo levantamento da Deloitte, 80% das companhias do Fortune 500 já exigem esse tipo de reporte de suas TMCs, as empresas gestoras de viagens corporativas. Esse número era marginal há três anos. A sustentabilidade entrou no RFP e no contrato, não apenas na apresentação institucional.
O que ainda é discurso
A honestidade sobre o que não está funcionando é tão importante quanto o reconhecimento do que avança.
O primeiro ponto de distância entre intenção e realidade está na visibilidade dos dados. Entre 20% e 35% das viagens corporativas são reservadas fora dos canais oficiais de gestão, segundo o estudo de compliance e leakage da GBTA de 2025. Isso significa que uma fatia significativa das emissões geradas por viagens não é capturada, não é medida e não entra no relatório de sustentabilidade. Uma empresa não pode gerenciar o que não enxerga.
O segundo ponto é o desconhecimento interno. Aproximadamente 70% dos colaboradores não conhecem as políticas de sustentabilidade de viagem da sua própria empresa, segundo levantamento da Passport Photo Online. A política existe no papel. Não existe na prática, porque nunca chegou ao viajante de forma clara e acessível.
O terceiro ponto é a armadilha do offset como substituto de redução real. Comprar créditos de carbono para compensar emissões que poderiam ser evitadas é uma estratégia legítima em contextos específicos, mas se tornou um atalho para muitas organizações que preferem pagar pela compensação a revisar suas políticas de deslocamento. O mercado está ficando mais criterioso com isso, e os padrões de reporte exigidos pela CSRD e pelo SBTi — o Science Based Targets initiative — estão tornando esse atalho cada vez menos aceitável como resposta definitiva.
E o quarto ponto é a desconexão entre a agenda ESG e a gestão de viagens dentro das próprias empresas. Em muitas organizações, o gestor de sustentabilidade e o gestor de viagens corporativas nunca sentaram juntos para alinhar objetivos, métricas e responsabilidades. O resultado é uma agenda ESG robusta no papel e um programa de viagens que opera como se essa agenda não existisse.
O que muda quando a política é real
Quando a sustentabilidade deixa de ser uma declaração e passa a ser uma política operacional do programa de viagens, os efeitos são concretos e mensuráveis em múltiplas dimensões.
Na dimensão financeira, programas com maior compliance, incluindo adesão a políticas de sustentabilidade, gastam 13,4% menos por viagem do que programas com baixo índice de conformidade, segundo estudo da BCD Travel de 2025. Sustentabilidade e eficiência de custo não são objetivos opostos. Com frequência, andam juntos.
Na dimensão regulatória, empresas que já constroem estruturas de medição e reporte hoje estão criando vantagem sobre concorrentes que vão ter que fazer esse trabalho às pressas quando as obrigações se tornarem mandatórias em seus mercados.
Na dimensão de talentos, dados de 2026 mostram que a geração de profissionais que está assumindo posições de liderança considera a agenda ESG da empresa um critério de decisão, tanto na escolha do empregador quanto na avaliação da credibilidade institucional da organização.
E na dimensão competitiva, clientes e parceiros internacionais — especialmente os europeus, já sujeitos à CSRD — estão cada vez mais exigindo que fornecedores e parceiros demonstrem compromissos verificáveis de sustentabilidade. O programa de viagens da sua empresa pode ser um argumento de venda ou um obstáculo em um processo de qualificação.
Por onde começar
A distância entre intenção e política real não se fecha com uma declaração de compromisso. Fecha-se com quatro movimentos concretos e sequenciais.
O primeiro é medir o que existe hoje, integrar a captura de dados de emissões ao processo de gestão de viagens, incluindo os deslocamentos fora dos canais oficiais. O segundo é tornar o dado visível no ponto de decisão, no momento da reserva, não no relatório trimestral. O terceiro é revisar a política de viagens com critérios de substituição modal e limites de distância para voos de curta duração. E o quarto é escolher parceiros de gestão de viagens que tenham ferramentas e processos para suportar essa agenda, não apenas fornecedores que declaram compromisso com sustentabilidade em seus próprios materiais.
A TP Corporate trabalha com as empresas que atende para transformar a agenda de sustentabilidade em viagens corporativas de intenção declarada em política operacional real, com dados, rastreabilidade e resultado mensurável.
Fale com a nossa equipe e descubra como estruturar um programa de viagens corporativas alinhado à sua agenda ESG.
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Fontes: IATA Sustainability Report 2025; IATA SAF Fact Sheet June 2026; GBTA Sustainability Report 2024; GBTA Leakage & Compliance Study 2025; BCD Travel Industry Report 2025; Deloitte Sustainability Survey 2024; EU CSRD / EFRAG ESRS E1; SBTi Corporate Net-Zero Standard; Worldmetrics Corporate Travel Statistics 2026; Trellis / BCG SAF Certificates Report 2024; Passport Photo Online Sustainable Travel Statistics 2026; Safe Harbors Corporate Travel Management 2025.



